sábado, 9 de janeiro de 2010

laços

Às vezes sinto falta. Saudades dos sentimentos e das sensações livres. Ríamos por tudo e por nada, ocupados apenas em usufruir do tempo quente, das brincadeiras e festas.
Comer tudo o que se quer, nadar até a pele enrugar, cantar até o amanhecer, se esconder dos adultos que bisbilhotavam.
Algumas brincadeiras, de tão difíceis de compreender, fingíamos então (e fingimos hoje) que nunca aconteceram.
Lembro-me do prédio da rua Saint Hilaire. Do carrinho de pipoca e dos avisos da vizinhança sobre homens maus que perseguiam as crianças que nós éramos....Do meu cachorro que eu carregava feito boneca, do encontro com Papai Noel, de dormirmos todos em colchões no chão.....Crianças em férias escolares, despreocupadas, gargalhando como contorcionistas.
Eram tempos mágicos, em que antecipação se transformava em doces e beijos....em que desejos e idéias se materializavam. Tudo era, sim, possível. Não havia limites para nós. (Será que é assim para todos? Ou é algo típico de nós e de nosso sobrenome?)
A verdade veio, então: desrespeitou lares e enterrou esperanças. Mostrou-nos a crueza do medo e da solidão. A impossibilidade do diálogo. A morte e o luto precoces. Difamação, doença e perda se apresentaram também a nós (não somente aos outros, menos afortunados).
Crescemos fortes e altivos. Encaramos o passado com rugas de gente grande, desafiamos calúnias e injustiças, re-significamos sonhos.
Somos hoje pais atuantes e responsáveis. Atravessamos a grande noite, preparando os pequenos com um misto de verdade e doçura.
Sábios e sofridos, sabemos o quanto ainda podemos, por e apesar do aprendizado difícil e tardio.
E, embora calados e distantes, buscamos ainda o alívio e a cumplicidade nos encontros e abraços. Estes mais tímidos, mas igualmente sinceros e amorosos...

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