sábado, 9 de janeiro de 2010

é proibido chorar

Apesar dos créditos finais já há alguns segundos (branco sobre fundo preto), ninguém se levanta da platéia. Como numa sessão de hipnose coletiva.
Ela se mexe, nervosa. Aflita para sair dali, limpando com a ponta dos dedos magros os rastros de lágrimas. Levanta o corpo e força sua saída ainda com a sala escura. Não entende seu próprio desconforto. Talvez a identificação com a personagem tenha sido demais, interpreta. Duvida que mais alguém no cinema (lotado) tenha chorado, afinal é uma comédia.
Está no cine Belas Artes desde as seis e meia. Foi uma dobradinha de Alain Resnais com  Anna Muylaert (a mesma de Durval Discos).
“Agora chega!”, diz pra si mesma. Sai apressada, pisando duro até o estacionamento.  Ainda bem que está sozinha. Decide não ir pra casa e acaba em uma lanchonete quase vazia. Melhor assim, pois sabe que vai precisar entender aquilo. Classificar, interpretar, nomear.
Repassa mentalmente a história e faz as costuras psicanalíticas possíveis.
A densidade da trama está em eliminar o elemento castrador, ‘impedidor’ do encontro amoroso da heroína e seu objeto de desejo. É o delírio de todos os mortais: eliminar o que nos impede o prazer.
O inusitado é que a coisa se concretiza. O ‘terceiro elemento’ do triângulo amoroso é eliminado pela mocinha. E o que é mais sublime: ela o faz sem saber, ‘sem querer’. É o ato falho, o inconsciente em ação.
A platéia se identifica com a mocinha, transformada em assassina. Acompanha sua culpa e mortificação. A partir dali, a culpa não a permitirá usufruir do prazer proporcionado pelo seu ‘objeto de desejo’ que agora é só seu e se coloca frágil e entregue.
A mocinha acolhe o mocinho, claro. Desfruta dos benefícios por ele proporcionados, mas nunca mais sentirá o prazer da conquista legítima. Tenta negar a culpa, tenta esquecer. Mas os fatos nunca perdoam uma alma abençoada pela neurose.
Na lanchonete quase vazia (especialidade: hambúrgueres) nossa cinéfila está pensativa. Engole o sanduíche e batatas sem prazer, mas sai dali saciada. E lembra que um amigo que assistira ao filme lhe disse que era “divertidinho”.
Sua angústia está em saber que não se pode eliminar o triângulo amoroso. Ele persistirá. 
Vai ter de falar sobre isso na sessão de análise. Enquanto isso, o hambúrguer e as batatas devem resolver.

2 comentários:

  1. pois então, na fantasia se elimina o objeto castrador mas na realidade o caminho é compreender a culpa através da elaboração do conflito.

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  2. Exato! Mas, e quando a vida dá uma mãozinha e elimina a castração por meio do desejante?

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