sábado, 9 de janeiro de 2010

ligações perigosas

‘Não tenho a menor idéia’. Era o que ela diria se ele perguntasse. Mas ela sabia o porquê, sim. Tinha medo que ele percebesse e se magoasse mais. Então decidiu falar por telefone, assim correria um risco menor. Ligou na hora em que sabia que ele não estava e deixou recado com a irmã. Ligava para contar da viagem, explicar os pormenores, se ele quisesse que ligasse de volta. Mas não hoje, porque já estava tarde.
Tinha pena dele. Eram parecidos. Estavam no mesmo barco, afundando. Ele gostava dela e ela, de outro.
Quando o outro soubesse já estaria longe, “protegida”. Fora forçada pelos pais e pela condição do irmão mais novo, doente como estava. Iriam aproveitar para visitar os tios sem filhos, que poderiam hospedá-los e acolhê-los. Cada um com sua doença.
Já era tarde, mas não conseguia pegar no sono. Pensou no filme Ligações Perigosas com a Glenn Close no papel principal. Mas para ela o papel principal era o da Michelle Pfeiffer, claro. Pensava em como uma pessoa podia morrer de amor. Uma morte “natural”, lenta. Era isso que acontecia com ela? Os pais não permitiriam, fariam de tudo para que se recuperasse, encontrasse sentido em outras coisas. Ela nem se importava mais. Não iria contestar, porque não teria escolha aqui. Lá seria diferente. Poderia pensar direito, buscar alternativas.
Lembrou de uma cena marcante: Madame de Tourvel (Michelle Pfeiffer, delicada, com a pele fresca e branca) está na cama com o visconde. É uma cena de sexo com amor. Fica visível a entrega dos dois amantes e a rendição do visconde: ele, também, apaixonado. É reconfortante, perceber o visconde que antes apenas se divertia (uma diversão perversa), agora, apaixonado. Sorriu satisfeita, como se a cena lhe desse a certeza de quem nem tudo estava perdido.
Escolheu não dormir. Preferiu pesquisar sobre Les Liaisons Dangereuses  de Choderlos de Laclos. Descobriu que o livro rendeu onze adaptações para o cinema (o que provava a força e legitimidade da história).
Mas o que ficou na lembrança foi mesmo a interpretação de Michelle Pfeiffer no filme de Stephen Frears, frágil e intensamente apaixonada. Entregue ao Visconde de Valmont. E sua redenção no leito de morte, rodeada por freiras, inexperientes na entrega amorosa.
E, claro, sua recompensa: a morte do Visconde, que em seus últimos momentos, confessa seu amor.
Antes não o tivesse confessado, pensou. Melhor não saber que quase se foi feliz.

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