sábado, 21 de novembro de 2009

você



"Este seu olhar, quando encontra o meu, fala de umas coisas que eu nem posso acreditar...Doce é sonhar e pensar que você gosta de mim como eu de você..." (Antonio Carlos Jobim)



Quem poderia imaginar cantar em dueto canções da Bossa Nova com uma criança? Que essa criança escolheria Wave para coreografar e dançar diante de uma platéia desconhecida? Só você seria capaz...
Você, que quando bem pequena em uma viagem de carro com os avós cantou de cor
Este Seu Olhar, a música que ensaiamos juntas para o papai tempos atrás! Não conheço nenhuma outra criança que saiba de cor Este Seu Olhar...
Você, que adora tango e Tchaikovsky
, que me acompanha em peças de teatro proibidas para covardes, que filosofa sobre ciência e religião, que me ensina sobre o comportamento humano e suas incoerências, que me abraça quando me sente triste...

Que precisa do meu colo e compreensão, que me espera para o beijo de boa noite, que conta comigo para as grandes decisões, que sabe que pode confiar, porque sente o mesmo que eu: fomos feitas uma para a outra para sermos companheiras por toda a eternidade...
Não sei se tenho feito um bom trabalho. Acho que não. Mas meu sentimento é verdadeiro e profundo e meu pecado é o de nunca deixar nada na superfície das explicações tolas e vazias...Mas você aceita e até gosta porque somos tão parecidas!
Sinto tanto orgulho de você! Tanto, que nem consigo segurar a emoção enquanto escrevo isso. Admiração por sua coragem, seus valores, sua profundidade, sua busca por verdade e justiça.
Admiração por sua determinação em ser o que escolheu. Algo que eu nunca consegui, por ter sido uma criança perdida e aprisionada a uma vida que não era minha.
Só assumi meu lugar no mundo quando você apareceu treze anos atrás. Nunca mais fui a mesma. Você me transformou na pessoa que eu sempre quis ser.
Agradeço aos deuses por sua chegada. E a você, por conferir à minha existência alguma dignidade. 




* para meu único e verdadeiro amor, a quem amarei para sempre, chova ou faça sol.

enjaulado

...sinto-me como um felino enjaulado, paralisado por um bando de pacas.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

e se...


E se eu dissesse...
Que é tudo diversão...que não tenho segundas intenções...que não espero que me acompanhe...que não peço que aja.....que aceito as pontas soltas e os laços frouxos...que posso o que eu quiser, e, por acreditar que posso, faço...que tenho fôlego para algum tempo mais...que me delicio com tudo isso...que estou sempre pronta....que traço meu próprio caminho...que aproveito cada minuto...que sei que as coisas podem mudar...que posso ter o que eu quiser, e se não tenho é porque talvez não queira...que ainda desejo...que realizo todos os meus sonhos...que irei até o fim...que ainda acredito no amor, mas não serei escrava dele...que é tudo verdade, e, ainda assim, mentira...
Você acreditaria?

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

inverno


Nosso ritmo desafia o movimento natural do universo.
Somos prisioneiros de nossas próprias fantasias. Presos um ao outro como na imagem do arcano do Diabo representado no TAROT.
Há um TAROT que traz, para este arcano, a figura de duas pessoas acorrentadas (enredadas, emaranhadas, entrelaçadas) e o título em inglês é entangled. Isso me faz lembrar o trocadilho alusivo ao tango: “It takes two to tangle”.
Sei que é preciso dois para viver o que vivemos, mas sou eu quem experimenta a instabilidade. Vivo a incerteza dos que não compreendem o sentido das partes por não enxergar o todo. Talvez as emoções impeçam a visão ampla e a possibilidade de compreensão do outro, de suas demandas e receios.
Há dias em que penso que não vou conseguir seguir em frente. Hoje é um deles. Penso em nós e no quanto estamos separados nesta existência. E não há como escapar das perguntas clássicas: Por que tem que ser assim? Por que somos o que somos? Por que não conseguimos avançar?
Sofro calada. Sou, portanto, a única culpada. Esta é minha confissão.
Tenho aprendido muito sobre muita coisa e, especialmente, sobre mim. Mas muito, muito pouco sobre você. Já não sei mais se o que vejo é sua pessoa ou sua persona. Você sabe?
Ouço o telefone e sei que é você. Tenta explicar alguma coisa, mas não consigo ouvir, tantas são as explicações. As falas cada vez mais perdem o sentido.
Penso em desistir, mas não desisto. Continuo acreditando em nós. Que talvez possamos construir algo além do que temos hoje.
A breve conversa termina. Você imagina que tenho algo especial para dizer, mas eu nego. Culpada, mais uma vez.
Estamos no inverno, você e eu, apesar do clima insuportavelmente quente.
Nosso ritmo, como sempre, desafia o movimento natural do universo.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

tango


Sentada na cama cantarolando “someone to watch over me”. Lembro-me de um disco de vinil com Linda Ronstadt - que foi cantora de rock e depois caiu na realidade e passou a cantar baladas americanas.

Comprei no Museu do Disco, era importado, custava uma fortuna. Minhas mãos tremiam de excitação quando descobri o disco na loja e vi que podia pagar, eu devia ter uns dezoito anos. Cantei muito com Linda Ronstadt. Sei muitas canções de cor por causa dela....

Hoje escutei “come rain or come shine”. Fazia tempo, essa. Será que o amor é isso mesmo? Algo da ordem do “incondicional”, do tipo “continuarei te amando chova ou faça sol”? Já pensei que sim, depois que não. Pensando bem, é.

O casamento me mostrou o quanto é difícil passar da fase da fantasia para a da cumplicidade (única capaz de manter unidos os casais apaixonados). Esta última depende do conhecimento mútuo e para isso é preciso boa dose de humildade e autoconhecimento. Deveria ser proibido por lei casamento antes dos 40 ou pra quem nunca se submeteu a Psicanálise....

Fiquei muito emocionada ontem à noite. Levei uns CDs para ouvir com amigos e estava tudo indo bem até Madeleine Peyroux começar...Alguns sons deveriam também ser proibidos em certos contextos...

Escutamos também o grupo Bajofondo. Maravilhoso! Estou caindo novamente no comportamento dependente, como é meu costume. Os sintomas se assemelham às do Transtorno Obssessivo-Compulsivo: preciso escutar os primeiros acordes senão nem dou partida no carro. Aí escuto o mesmo CD até ele rachar (o Mardulce, do Bajofondo, deve ter uns dias de vida ainda).

O Bajofondo tem me feito sonhar de novo com o tango, que sempre mereceu lugar especial nas minhas emoções. Cheguei a chorar copiosamente num bar de Buenos Aires, atraindo atenção dos garçons preocupados em acudir a moça que passava mal.

Ah, o tango! Tive dois grandes parceiros de tango na minha vida (tem gente que passa a vida sem nenhum, então já me sinto privilegiada). Expressávamos nossa cumplicidade por meio dos passos, complicados e perfeitos. Uma sincronia possível apenas para os casais que se entendem pelo olhar.

Espero merecer viver isso de novo. Talvez exista um novo parceiro de tango a minha espera. Talvez. Enquanto isso, continuarei cantarolando baladas americanas.

sábado, 7 de novembro de 2009

sábado

Dou a mão à palmatória. Não pensei que fosse admirar tanto o trabalho de alguém, que, na minha fantasia, estaria principiando. Errei feio. A atuação é firme e delicada. A energia e o sentimento, verdadeiros e perturbadores.

O desequilíbrio emocional é derramado aos poucos diante de nós, pobres espectadores, que (na percepção sábia de minha filha de 12 anos) nada podem fazer para aliviar a dor da protagonista agonizante.

Suas referências desaparecem aos poucos: a lembrança dos familiares e amigos limita-se a pequenos objetos, falas soltas e imagens perdidas. Não há relação possível com o mundo como ele se apresenta no tempo presente. Só o passado pode ser vivido. Revivido com o gosto de naftalina das coisas mortas no armário. “Suicídio Social”: é a expressão da sábia de 12 anos.

A palavra que não pode se dita é “morte” (como você não entendeu isso, mãe!). Devia estar distraída, respondi. A emoção foi tanta, que me distraí mesmo. Perdi-me em minhas próprias associações e vivências familiares e na outra “desistência”, a do amigo querido, que se foi há menos de uma semana.

Para uma psicóloga a densidade e intensidade do texto não deixam dúvidas: precisamos desenvolver em nós capacidade de recuperação.

Perdas necessitam de espaço possível para elaboração. Algo muito mais da ordem da cumplicidade e do acolhimento do que da dos rituais fúnebres prestados pela sociedade.

Minha catarse não está completa. Esperemos pelo sábado.


*DESISTÊNCIA - Drama psicológico em cartaz até 18/12 no Teatro X - rua Rui Barbosa, 399 - Bela Vista, tel: 11-3283.2780

Concepção e Interpretação: Carla Juliano


sexta-feira, 6 de novembro de 2009

desistência

O título veio em boa hora. É preciso praticar a catarse enquanto é tempo....
O pai da Laura morreu no “dia dos mortos” e pensei: que dia mais propício (“adequado”, diria meu pai) pra se morrer! Só podia ser um sábio budista: morrer no dia de finados...
Quarenta e oito horas depois almoço com um amigo querido e damos muitas risadas que são interrompidas pela notícia fúnebre: outro que morreu. Não foi de morte matada nem de morte morrida: apenas desistiu. A notícia veio pelo novo
smartphone que ainda nem sei usar porque não leio manuais (essa é uma das minhas leis).
Consigo (sei lá como) participar de uma reunião de trabalho. Ensaio relatórios e e-mails. Troco risadas eletrônicas no escritório, espaço onde a subjetividade não é percebida. Melhor assim.
Tento explicar o inexplicável. Durmo. Acordo. Viajo. Na Av. Paulista tudo é rotina, inclusive o desconforto.
Há altos e baixos, movimento típico de bebê que ainda não existe completamente fora da barriga da mãe (pode ser fome, pode ser sede, pode ser falta, pode ser...). Os altos ficam por conta das boas companhias e os baixos, das más.
Hoje lembro da “Desistência”. O título soa quase místico. Preciso saber do que se trata. Decido ir (não há outra “decisão” possível...). Talvez seja minha catarse da semana.
Ou talvez a catarse seja amanhã (que fecha o ciclo dos sete dias), quando finalmente estarei frente a frente com aquele com quem meu desistente desejava me unir com tanta convicção! Como se fosse sua última tarefa. Nosso encontro é, sem dúvida, uma homenagem a ele. Será nossa C
erimônia do Adeus particular.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

primavera



Subo sem fôlego a escada de pedras. Tento diminuir a velocidade e equilibrar a respiração. Nossos encontros têm seu ritmo particular e estações bem definidas. Agora é primavera, enquanto escalo a pequena montanha de pedras.


Sei que você me espera junto ao portão de ferro, velho e enferrujado, desesperado por alguma atenção que você não dá porque não sabe. Você é assim: não faz porque ignora o que precisa ser feito (quem disse que precisa?).

As estações mudam rapidamente. A velocidade atrapalha e confunde meus pensamentos, atrasa as decisões que preciso tomar.

Vejo seu vulto – como alguém experiente em miopia severa: não enxerga com nitidez, mas antecipa os acontecimentos. Está cabisbaixo (típico de você), e só posiciona a cabeça em minha direção quando não há mais tempo de recuar. Você receia qualquer movimento definitivo, então prefere esperar.

Meu peito se acelera e os passos falham na irregularidade da calçada. Agradeço pelo mau tempo e o par de botas de salto baixo que ajudam a disfarçar o desequilíbrio e o medo.

Diminuo o ritmo como se isso desse mais glamour a minha aproximação. Não sei o quanto você sabe, mas não faz mal. Consigo olhar para trás e enxergar um caminho percorrido na penumbra. Apesar de tatear no escuro, consegui chegar até aqui. É isso que importa agora.

O abraço é macio e apaixonado (como sempre foi). Sinto ainda meu corpo dolorido pela sua ausência. Meu desejo é ficar ali, no portão enferrujado, e apenas usufruir do seu corpo quente que me envolve. Não conseguimos falar. Nosso diálogo flui sem a palavra falada. Habitamos um mundo particular.

Subimos juntos, de mãos dadas. Meu olhar é triste e você insinua uma pergunta. Sabe que não deve, mas não consegue evitar.

Vencemos o primeiro obstáculo da noite. Entramos na sala escura. Começa o verão.