sábado, 7 de novembro de 2009

sábado

Dou a mão à palmatória. Não pensei que fosse admirar tanto o trabalho de alguém, que, na minha fantasia, estaria principiando. Errei feio. A atuação é firme e delicada. A energia e o sentimento, verdadeiros e perturbadores.

O desequilíbrio emocional é derramado aos poucos diante de nós, pobres espectadores, que (na percepção sábia de minha filha de 12 anos) nada podem fazer para aliviar a dor da protagonista agonizante.

Suas referências desaparecem aos poucos: a lembrança dos familiares e amigos limita-se a pequenos objetos, falas soltas e imagens perdidas. Não há relação possível com o mundo como ele se apresenta no tempo presente. Só o passado pode ser vivido. Revivido com o gosto de naftalina das coisas mortas no armário. “Suicídio Social”: é a expressão da sábia de 12 anos.

A palavra que não pode se dita é “morte” (como você não entendeu isso, mãe!). Devia estar distraída, respondi. A emoção foi tanta, que me distraí mesmo. Perdi-me em minhas próprias associações e vivências familiares e na outra “desistência”, a do amigo querido, que se foi há menos de uma semana.

Para uma psicóloga a densidade e intensidade do texto não deixam dúvidas: precisamos desenvolver em nós capacidade de recuperação.

Perdas necessitam de espaço possível para elaboração. Algo muito mais da ordem da cumplicidade e do acolhimento do que da dos rituais fúnebres prestados pela sociedade.

Minha catarse não está completa. Esperemos pelo sábado.


*DESISTÊNCIA - Drama psicológico em cartaz até 18/12 no Teatro X - rua Rui Barbosa, 399 - Bela Vista, tel: 11-3283.2780

Concepção e Interpretação: Carla Juliano


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