
Subo sem fôlego a escada de pedras. Tento diminuir a velocidade e equilibrar a respiração. Nossos encontros têm seu ritmo particular e estações bem definidas. Agora é primavera, enquanto escalo a pequena montanha de pedras.
Sei que você me espera junto ao portão de ferro, velho e enferrujado, desesperado por alguma atenção que você não dá porque não sabe. Você é assim: não faz porque ignora o que precisa ser feito (quem disse que precisa?).
As estações mudam rapidamente. A velocidade atrapalha e confunde meus pensamentos, atrasa as decisões que preciso tomar.
Vejo seu vulto – como alguém experiente em miopia severa: não enxerga com nitidez, mas antecipa os acontecimentos. Está cabisbaixo (típico de você), e só posiciona a cabeça em minha direção quando não há mais tempo de recuar. Você receia qualquer movimento definitivo, então prefere esperar.
Meu peito se acelera e os passos falham na irregularidade da calçada. Agradeço pelo mau tempo e o par de botas de salto baixo que ajudam a disfarçar o desequilíbrio e o medo.
Diminuo o ritmo como se isso desse mais glamour a minha aproximação. Não sei o quanto você sabe, mas não faz mal. Consigo olhar para trás e enxergar um caminho percorrido na penumbra. Apesar de tatear no escuro, consegui chegar até aqui. É isso que importa agora.
O abraço é macio e apaixonado (como sempre foi). Sinto ainda meu corpo dolorido pela sua ausência. Meu desejo é ficar ali, no portão enferrujado, e apenas usufruir do seu corpo quente que me envolve. Não conseguimos falar. Nosso diálogo flui sem a palavra falada. Habitamos um mundo particular.
Subimos juntos, de mãos dadas. Meu olhar é triste e você insinua uma pergunta. Sabe que não deve, mas não consegue evitar.
Vencemos o primeiro obstáculo da noite. Entramos na sala escura. Começa o verão.

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